Em um mundo que venera a velocidade, a paciência deixa de ser uma simples virtude para se tornar um ato revolucionário de desobediência civil contra a tirania do tempo contraído. Resistir ao imediatismo não é sobre nostalgia, mas sobre a defesa ativa de dimensões fundamentais da condição humana que estão sendo erradicadas. É um voto de confiança nos processos orgânicos: escolher cultivar uma planta desde a semente, ler um livro denso até o fim, aprender um instrumento musical sabendo que levará anos para dominá-lo.
Cada uma dessas escolhas é um pequeno levante. Elas reafirmam que o ser humano não é uma máquina de eficiência, mas um ser de maturação, para quem o caminho é parte indissociável do destino. Esta revolução acontece no micro: ao não responder uma mensagem no mesmo segundo, ao cozinhar uma refeição do zero, ao tolerar o silêncio de uma conversa sem preenchê-lo com qualquer coisa. É a coragem de abraçar o tédio, a frustração e a incerteza que são inerentes a qualquer empreendimento significativo.
Praticar a paciência é, assim, recuperar a soberania sobre o próprio tempo e a própria atenção. É declarar que algumas coisas – as melhores coisas – não podem ser aceleradas, e que é precisamente no tempo que lhes é devido que elas revelam sua verdadeira essência e nos transformam.
Julio Monteiro
Junho de 2022