Vivemos uma época de abundância paradoxal: temos acesso a mais informação, recursos e possibilidades do que qualquer geração anterior, mas, em contrapartida, experimentamos uma escassez aguda de sentido, paz e direção. A vida moderna, com seu ritmo frenético e suas demandas infinitas, assemelha-se a um mar em constante agitação, onde a alma, desprovida de âncora, é arrastada pela correnteza do imediatismo e pela tempestade das emoções desgovernadas. Neste cenário de caos externo e interno, a ideia de “gerenciar a vida” soa quase como uma pretensão arrogante, uma ilusão de controle. No entanto, é precisamente neste ponto que a perspectiva espiritual oferece um caminho radicalmente diferente: a gestão da vida não começa com o domínio das circunstâncias externas, mas com a rendição da vontade própria à uma ordem transcendente. A disciplina espiritual surge, então, não como um fardo de regras ascéticas, mas como o convite divino para erguer, no terreno movediço do nosso caos, uma estrutura interior inabalável. Trata-se de um chamado à ordem – não a ordem imposta pelo mundo, que é frequentemente desordenada em sua essência, mas a ordem que emana do próprio coração de Deus, princípio criador e sustentador de todas as coisas. Quando o salmista declara “No caos, Tu és a minha ordem”, ele revela o segredo: a verdadeira administração da existência é um ato de alinhamento, de sincronizar o ritmo da nossa alma com o compasso eterno do Criador.
A essência da disciplina espiritual reside na compreensão de que somos seres integrais, cuja dimensão espiritual é a raiz e o fundamento de todas as outras. Negligenciá-la é como tentar governar um reino a partir de suas províncias mais distantes, ignorando a capital. O caos emocional, a procrastinação, a falta de bom senso nas decisões e a fúria que irrompe de forma desproporcional são, frequentemente, sintomas de uma alma desregrada, que perdeu seu ponto de referência. As práticas clássicas da fé – a oração contemplativa, a meditação sistemática nas Escrituras, o jejum, o silêncio voluntário, a adoração – funcionam como os exercícios de um atleta do espírito. Elas não têm por objetivo principal a obtenção de favores divinos ou a demonstração de piedade, mas o treinamento do ser interior para a realidade do Reino. Através da oração, submetemos nossa ansiedade imediatista aos pés da eternidade, trocando a urgência febril pela petição confiante. Na meditação da Palavra, realinhamos nosso pensamento com a sabedoria de Deus, contrapondo a lógica efêmera do mundo ao critério permanente da Verdade. O jejum ensina ao corpo e à alma que “não só de pão viverá o homem”, desatando-nos da tirania dos apetites e desejos instantâneos. São atos simples, mas profundamente revolucionários, porque atacam a raiz do problema: a autonomia do ego. Cada momento de silêncio diante de Deus é um golpe contra o ruído interno; cada instante de escuta atenta da Sua voz é um passo para destronar as vozes conflitantes que geram a desordem interior.
O imediatismo, talvez a característica mais marcante de nosso tempo, é a antítese direta deste cultivo paciente do espírito. Ele nos oferece a promessa vazia de soluções rápidas e gratificações instantâneas, criando uma expectativa irreal que, quando frustrada, frequentemente degenera em frustração, fúria e uma profunda falta de bom senso. A pessoa imediatista quer colher onde não plantou, quer paz sem os passos que a conduzem, quer respostas sem o processo de busca. A disciplina espiritual, por sua vez, opera na lógica do agricultor e do construtor. Ela exige paciência, repetição e fé no processo. Não há como desenvolver o fruto do Espírito – amor, alegria, paz, longanimidade – em um fim de semana de retiro intensivo. Essas virtudes são cultivadas no terreno do cotidiano, através da aplicação diária e metódica dos princípios espirituais. É um trabalho de formiga, invisível aos olhos do mundo, mas que, gota a gota, escava cânions de caráter na rocha da personalidade. Essa prática consistente cria um “lastro” na alma, um peso de glória que a estabiliza quando as ondas do caos externo tentam virá-la. A falta de bom senso, que vemos proliferar em decisões pessoais e coletivas desastrosas, é em grande parte fruto desta alma leve, sem lastro, que é levada por qualquer vento de doutrina, emoção passageira ou tendência popular. A disciplina nos ancora na Rocha que é inabalável.
Portanto, gerenciar a vida a partir de uma perspectiva espiritual alinhada com Deus é reconhecer que a primeira e mais importante gestão é a do próprio coração diante dEle. A ordem que buscamos para nossas agendas, finanças e relacionamentos é um reflexo, uma consequência natural, de uma ordem preestabelecida no lugar secreto da comunhão. O caos do mundo não será debelado por nossas estratégias humanas, mas pode ser serenamente atravessado por uma alma que aprendeu a habitar no centro da vontade de Deus, que é um lugar de perfeita paz. As disciplinas são os portais para este centro. Elas não são um fim em si mesmas, mas os meios graciosos pelos quais nos esvaziamos de nós mesmos para sermos preenchidos por Aquele que é a própria Ordem, a Sabedoria e a Paz. Quando respondemos a esse chamado à ordem, descobrimos que a verdadeira produtividade é frutificação espiritual, que o verdadeiro controle é a rendição confiante, e que a vida bem gerida é aquela que, dia após dia, é realinhada pelo toque silencioso e transformador do Espírito. Neste processo, o ego é domado, a fúria é dissipada pela paz que excede todo entendimento, e o imediatismo cede lugar a uma esperança confiante no tempo perfeito de Deus. A gestão deixa de ser uma luta exaustiva e se torna um fluxo de graça, onde, mesmo em meio ao caos, a alma aprende a cantar o cântico certo, na hora certa, porque está afinada com o Maestro eterno.
Julio Monteiro
Dez.2019