O imediatismo não é apenas um mau hábito; é uma lógica totalitária que governa a percepção do tempo. Ele instaura a ditadura do agora, onde qualquer processo que não ofereça um retorno visível, mensurável e rápido é considerado um fracasso ou uma perda de tempo. Esta tirania sufoca o que há de mais vital na experiência humana: a profundidade. A aprendizagem significativa, que exige errar, repetir e digerir, é substituída pelo fast learning de tutoriais de cinco minutos. Os relacionamentos, que dependem de confiança construída gota a gota, são julgados pela química instantânea das primeiras mensagens. Até o ócio, espaço fértil para a criatividade e o autoconhecimento, é colonizado pela demanda de “otimização” do tempo livre.
O resultado é uma existência plana, vivida na superfície dos estímulos, onde nada tem raízes suficientemente fortes para resistir ao primeiro vento de dificuldade. A profundidade – seja de um pensamento, de um sentimento ou de um projeto – é filha do tempo dilatado e da atenção sustentada, dois recursos que o regime do imediato declara obsoletos. Viver sob esta ditadura é trocar a riqueza do processo pela pobreza do mero resultado, e condenar-se a uma fome crônica de sentido.
Julio Monteiro
Outubro 2023