Há no centro da psique humana um trono. A cosmovisência bíblica afirma que este lugar de soberania absoluta foi projetado para ser ocupado por Deus. O pecado, em sua essência, foi a tentativa do ego de destronar o Criador e assumir o comando. Desde então, vivemos sob a “Síndrome do Trono Vazio”: uma ansiedade profunda e uma compulsão por controlar pessoas, circunstâncias, resultados e até mesmo a imagem que projetamos. O ego é o usurpador que, sentando-se neste lugar para o qual não foi feito, vive em estado de pânico constante, pois sabe, em seu íntimo, que é um impostor.
Esta sede de controle é a raiz de grande parte de nossa fadiga existencial. O ego se veste de títulos, acumula posses, manipula relacionamentos e traça planos meticulosos, tudo numa tentativa desesperada de provar a si mesmo e ao mundo que tem o direito de reinar. O imediatismo é um sintoma disto: a incapacidade de esperar revela a descrença de que há um Outro no controle, com um tempo e um propósito superiores. A fúria, por sua vez, explode quando o mundo se recusa a se curvar aos decretos do nosso pequeno eu coroado.
A verdadeira liberdade espiritual começa com a abdicação. É o ato de descer do trono, não por fraqueza, mas por sublime discernimento: reconhecer que aquele lugar não é nosso. A entrega da vontade não é derrota, mas a única estratégia sábia diante de uma realidade governada pela Providência. Quando Deus reassume Seu legítimo lugar no centro da vida, o ego é destronado, mas a pessoa é, enfim, salva. A busca frenética por poder cessa, substituída pela paz de quem sabe que o verdadeiro Rei está no comando, e que Seu governo é perfeito. A gestão da vida deixa de ser uma luta por controle e se torna um confiante acompanhamento da vontade soberana que tudo conduz para o bem.
Julio Monteiro
Março de 2019